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sexta-feira, 24 de junho de 2016

Em SP, pesquisadores fazem ato em defesa de institutos públicos de pesquisa

São Paulo - Manifestação de pesquisadores científicos em frente à Alesp contra o Projeto de Lei 328/2016, do governador Geraldo Alckmin, que autoriza a venda de imóveis do Estado (Rovena Rosa/Agência Brasil)
A Associação dos Pesquisadores Científicos do Estado de São Paulo fez hoje (21) uma manifestação na Assembleia Legislativa de São Paulo em defesa dos Institutos Públicos de Pesquisa, cujas áreas estão entre os imóveis pertencentes à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo e que poderão ser vendidos, caso o Projeto de Lei (PL) Nº 328, de 2016, do governo de Geraldo Alckmin, seja aprovado. O ato é mais um dos eventos feitos pela associação para divulgar o projeto e as reivindicações dos trabalhadores.

Segundo o projeto, as áreas dos institutos serão vendidas para a iniciativa privada, para arrecadar mais recursos e reduzir impostos. A ação pode resultar no fechamento de 18 institutos de pesquisa: os institutos Agronômico, Biológico, de Zootecnia,de Tecnologia de Alimentos, de Pesca, de Economia Agrícola, Butantan, Adolfo Lutz,  da Saúde, Dante Pazanezzi de Cardiologia, Instituto Lauro de Souza Lima, Florestal, de Botânica e Geológico. Também correm o risco de serem fechados o Departamento de Descentralização do Desenvolvimento (Polos Regionais), Laboratórios de Investigação Médica, Instituto Pasteur, Superintendência de Controle de Endemias, Instituto Lauro de Souza Lima, Instituto Florestal, Instituto de Botânica e Instituto Geológico.

O presidente da Associação dos Pesquisadores, Joaquim Azevedo Filho, disse que contou com o apoio de várias entidades. Segundo Azevedo, o PL é um atentado contra a pesquisa científica do estado de São Paulo e um ato de irresponsabilidade com relação à pesquisa. “Áreas onde estão sendo realizadas pesquisas são colocadas à venda sem discussão dos prejuízos para a sociedade. Esse projeto de lei pode resultar na interrupção de pesquisas importantes que estão em andamento em áreas que foram classificadas pelo governo estadual como ociosas e de pouca serventia”.

De acordo com Azevedo, o setor da pesquisa vem, há anos, com congelamento no orçamento, falta de reposição de pessoal, além de baixos salários, o que faz com que os cientistas não permaneçam nas entidades. "Esse projeto vem para coroar todas as atitudes que estão sendo tomadas há vários anos”. Azevedo disse que não há alternativa para que pesquisadores sejam remanejados para outras áreas ou que dêem continuidade nas pesquisas.

O presidente da associação ressaltou que, apesar da liminar expedida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que veta provisoriamente a venda dos terrenos onde ficam os institutos, ainda há possibilidade de o projeto ser aprovado. De acordo com ele, a liminar foi expedida porque não houve discussão prévia com a comunidade científica sobre a venda das áreas e as consequências. “Pela Constituição, seria necessário uma audiência antes de vender, doar ou transferir essas propriedades para que tenhamos a oportunidade de mostrar a utilidade delas".

Fonte: Agência Brasil

segunda-feira, 6 de junho de 2016

Escavação acha vestígios de 11 mil anos no Brasil

Arqueologia
Uma descoberta arqueológica no interior paulista deve enriquecer o debate científico sobre a ocupação da América pelos primeiros humanos. Em laudo elaborado recentemente por um laboratório americano, constatou-se que um sítio de São Manuel, na região central do Estado, era habitado por um povo pré-colombiano há 11 mil anos.

A datação, certificada pelo laboratório Beta Analytic, coloca o Sítio Caetetuba, de 55 mil metros quadrados, entre os achados arqueológicos com sinais de presença humana mais antigos do País - e, muito possivelmente, de São Paulo, já que estimativas de pontos mais remotos não são aceitas com unanimidade na comunidade científica. Foram resgatados ali 3 mil itens, todos de pedra lascada.

"É possível perceber todo o processo de produção", afirma o arqueólogo Lucas Souza Troncoso, pesquisador do Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) e um dos 15 profissionais responsáveis pelo achado, todos funcionários da empresa Zanettini Arqueologia. "Pelo formato, resultado do manuseio, é possível inferir quais pedras eram usadas para fazer as ferramentas e quais eram os resultados finais. Identificamos sete projéteis, usados para caça."

Feitas ao longo de três meses no início deste ano, as escavações ocorreram em conformidade com a legislação ambiental, para que a empresa proprietária da fazenda, a Usina Açucareira São Manoel, pudesse ampliar sua área de cultivo.

Foram mapeados 14 sítios arqueológicos, entre eles o Caetetuba - 11 escavados e três, por exigência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), preservados. "Estamos diante de um exemplo de resultado científico dessa lei, em convivência entre o campo econômico e a preservação do patrimônio", diz o arqueólogo Paulo Zanettini, responsável pelo estudo.

No total, mais de 10 mil itens foram coletados. Agora passam por análise e catalogação, no laboratório da empresa Zanettini, no Butantã, zona oeste da capital. Até o fim do ano, os relatórios do trabalho devem ser entregues ao Iphan e o material, acondicionado no Museu de Arqueologia e Paleontologia de Araraquara, no interior.

Além do Caetetuba, dois outros sítios chamam a atenção pela raridade do material. No Serrito I, com ocupação estimada entre 500 e 2 mil anos atrás, foi encontrada uma variada coleção de cerâmicas com acabamentos esteticamente refinados - seja com uso de tintas ou com uso de unhas para criar desenhos em baixo relevo.

Já o Serrito II, um dos eleitos pelo Iphan para seguir preservado, sem escavação, tem um paredão de pedra aparente em que há pinturas rupestres - em algumas, é possível identificar figuras que se assemelham ao Sol.

Relevância

Geneticista especializada em populações americanas antigas, a professora Maria Cátira Bortolini, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), coloca a descoberta no mesmo nível das mais importantes de toda a América.

"Datações antigas costumam ser muito controversas, porque muitas vezes não fica clara a ligação do material analisado com a ocupação humana", explica. "Por consenso da comunidade científica, aceitam-se evidências como de Lagoa Santa, em Minas, com cerca de 12 mil anos, e Monte Verde, no Chile, com 14 mil anos. Qualquer fato extraordinário precisa de evidências extraordinárias."

Zanettini calcula que muito deve ter se perdido ou ainda seja desconhecido nos solos do interior paulista. "Cerca de 50% dos municípios de São Paulo jamais tiveram uma análise arqueológica", diz.

Para a arqueóloga Niède Guidon, integrante da Missão Arqueológica Franco-Brasileira e presidente da Fundação Museu do Homem Americano, a escassez de resultados semelhantes no interior paulista é consequência de poucas pesquisas feitas - e não de pouca presença de povos na antiguidade. "E pela própria ocupação contemporânea, muitos sítios devem ter sido destruídos antes de ser estudados."

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.