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quarta-feira, 20 de abril de 2016

Dispensador de larvicida é premiado por inovação contra zika

Mosquito Aedes aegypti, em centro de pesquisa em Cali, Colômbia 2/2/2016
Um dispositivo capaz de dispensar automaticamente quantidades suficientes de larvicida para manter caixas d’água livres de larvas de mosquito por até um ano foi escolhido como a “solução mais implementável” em um concurso de inovação realizado nos Estados Unidos, no início de abril, com o objetivo de criar novas ferramentas para combater o vírus Zika e demais patógenos transmitidos pelo Aedes aegypti.

Três brasileiros integram o grupo responsável pelo desenvolvimento do LAD (Dispensador Automático de Larvicida, na sigla em inglês): o engenheiro Marcelo de Castro, fundador da empresa Linpix Software LLC, e os alunos de doutorado da Universidade da Carolina do Norte (UNC) em Charlotte Adriano Schneider e Denis Jacob Machado – este último bolsista da Fapesp.

A equipe conta ainda com Gregorio Linchangco, também aluno de doutorado da UNC Charlotte, o médico M. Ihsan Kaadan (Massachusetts General Hospital), a estudante secundarista Kara Luo (Lexington High School), a estudante de medicina Karen Cheng (Boston University School of Medicine) e o engenheiro Paul Chang (Cornell University).

“Castro teve a ideia de criar o dispensador automático depois de ver reportagens veiculadas na imprensa brasileira que mostravam equipes de saúde do governo visitando mensalmente bairros com grande incidência de Aedes para aplicar larvicida manualmente nas caixas d’água”, contou Machado.

Segundo o pesquisador, tal medida não é eficaz no combate ao mosquito, pois, como há muita circulação de água no interior das caixas, o larvicida rapidamente se dispersa.

“Como a larva do mosquito leva entre 7 e 10 dias para se desenvolver, os reservatórios estariam protegidos somente na primeira semana após a aplicação do produto”, acrescentou Machado.

Em apenas 48 horas, com auxílio de uma impressora 3D, o grupo criou um protótipo do LAD, que no Brasil deverá ser lançado com outro nome.

Trata-se de um dispositivo portátil de plástico que fica sob a superfície da água e garante uma concentração segura de larvicida nos reservatórios mesmo após vários ciclos (esvaziar e encher a caixa várias vezes).

A equipe estima que a manutenção só seja necessária uma vez por ano.

“Dessa forma, o número de visitas pode ser reduzido drasticamente e a eficiência da medida aumentada. Uma de nossas preocupações era encontrar meios de usar a menor quantidade possível de produto químico para eliminação das larvas.Levando em consideração seu ciclo de vida, não há necessidade de adicionar larvicida diariamente. Cerca de uma vez por semana é suficiente”, disse Machado.

Formado em Biologia Marinha, Machado cursa o doutorado na área de bioinformática, com o objetivo de desenvolver estratégias computacionais que podem ser usadas para entender a evolução de toxinas em anfíbios.

No Brasil, ele está vinculado ao Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP), sob orientação do professor Taran Grant.

“Tenho grande interesse em toxicidade e, quando me convidaram para participar da equipe, minha principal preocupação foi garantir que a quantidade de larvicida liberada pelo dispositivo não fosse danosa nem para o meio ambiente, nem para os moradores da casa”, disse.

Nos Estados Unidos, Machado, Schneider e Linchangco são orientados pelo professor da UNC Charlotte Daniel Janies, coordenador do Departamento de Bioinformática e Genômica.

Schneider, originalmente, iniciou um projeto de doutorado voltado ao uso de ferramentas de bioinformática para o estudo do vírus HIV, causador da Aids.

Quando emergiu a epidemia associada ao vírus Zika, porém, seu foco mudou. “Desde janeiro tenho estudado a evolução do vírus Zika e, por meio de parcerias com especialistas em imunologia, tento entender quais alterações genéticas o vírus sofreu para alcançar a atual patogenicidade”, contou.

Hackeando o Zika

Realizado no Massachusetts General Hospital (MGH), em Boston, o evento Zika Innovation Hack-a-thon 2016 reuniu nos dias 2 e 3 de abril cerca de 150 interessados em saúde global e em inovação.

A iniciativa foi organizada pelo The Consortium for Affordable Medical Technologies (CAMTech) e pelo Global Disaster Response, um dos centros sediados no MGH.

O desafio proposto aos participantes era criar, em apenas 48 horas, soluções inovadoras para combater as doenças transmitidas pelo Aedes, bem como o mosquito vetor.

O Hack-a-thon – também conhecido como hack day ou hackfest – é um modelo de evento que surgiu no fim do século passado, nos Estados Unidos, visando reunir programadores, desenvolvedores de software e de hardware e promover colaboração intensa em um projeto específico.

“Mais recentemente surgiu uma versão de hack-a-thon voltada para inovação. De maneira geral, são organizados quando se sente a necessidade de encontrar soluções para um problema específico, neste caso, o combate ao Zika”, contou Machado.

Além do LAD, premiado na categoria “Solução mais Implementável”, outros projetos foram selecionados nas categorias “Solução mais Inovadora” e “Inovação que Promete o Maior Impacto em Saúde Pública”.

No primeiro caso, venceu um aplicativo para celular capaz de detectar a presença e a localização geográfica de larvas de mosquito.

No segundo caso, houve empate entre dois projetos: um aplicativo que permite ao usuário reportar áreas propícias para reprodução do mosquito e um jogo voltado a ensinar crianças sobre os riscos associados ao Aedes.

Além de um prêmio simbólico em dinheiro, os vencedores receberão apoio logístico da CAMTech para transformar a ideia em um produto.

“Eles têm uma plataforma de inovação e assessoram os grupos na aquisição de patente, no processo de desenvolvimento de produtos e na obtenção de financiamento”, contou Machado.

“O Hack-a-thon é um modelo interessante porque reúne pessoas de diversas áreas. Algumas ideias que originalmente não seriam viáveis, quando trabalhadas em time, tornam-se possíveis de implementar”, acrescentou.

Fonte: Exame

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Zika pode estar associado a outra doença neurológica

Mosquito Aedes aegypti transmissor da dengue, vírus zika e febre chikungunya
Além da microcefalia e da síndrome de Guillain-Barré, o vírus zika pode estar associado a mais uma doença neurológica: a encefalomielite aguda disseminada (ADEM, na sigla em inglês), síndrome autoimune que causa inflamação no sistema nervoso central.

Um estudo feito no Recife e que será divulgado na sexta-feira no encontro anual da Academia Americana de Neurologia, em Vancouver, no Canadá, encontrou evidências de associação entre o vírus e a ADEM em pelo menos dois casos.

Cientistas já desconfiavam de uma conexão entre o zika e a ADEM, conforme mostrou o jornal O Estado de S. Paulo em fevereiro. Mas só agora serão apresentados os resultados científicos do estudo liderado por Maria Lucia Brito Ferreira, chefe do Serviço de Neurologia do Hospital da Restauração, no Recife.

"Embora seja um estudo pequeno, ele pode fornecer evidências de que o vírus causa no cérebro efeitos diferentes daqueles que haviam sido identificados nos estudos em curso. Mas muita pesquisa ainda terá de ser feita para explorar se há uma relação causal entre o zika e esses problemas cerebrais", disse Maria Lúcia.

No estudo os cientistas acompanharam, entre dezembro de 2014 e junho de 2015, todos os casos que chegaram ao Hospital da Restauração com sintomas de infecção por arbovírus - a família de vírus que inclui zika, dengue e chikungunya.

Todos os pacientes estudados chegaram ao hospital com febre e erupções na pele. Alguns também apresentavam coceiras, dores em músculos e articulações, além de olhos vermelhos. Alguns tiveram sintomas neurológicos logo em seguida e outros os apresentaram cerca de 15 dias depois.

Os autores registraram 151 casos com algum tipo de manifestação neurológica, mas seis deles desenvolveram sintomas neurológicos típicos de doenças autoimunes - aquelas nas quais o sistema imunológico do paciente ataca e destrói células de tecidos saudáveis de seu próprio organismo.

Os seis pacientes foram submetidos a exames e testes sanguíneos. Quatro apresentavam a síndrome de Guillain-Barré que, assim como a microcefalia, tem sido associada à infecção por zika. Outros dois foram diagnosticados com ADEM. Os testes revelaram que os seis já haviam sido infectados por zika, mas nenhum deles por dengue ou chikungunya.

Nos pacientes com ADEM, segundo os especialistas, as células de defesa do organismo no cérebro e na medula espinhal atacam a bainha de mielina, uma cobertura de gordura que envolve as fibras nervosas e tem função semelhante à da capa de um fio condutor de eletricidade. A síndrome de Guillain-Barré também é autoimune e envolve danos à bainha de mielina.

Danos

Nos dois casos registrados, as tomografias do cérebro mostraram que os pacientes com ADEM tinham sinais de danos na matéria branca cerebral. Segundo os cientistas, os sintomas são semelhantes aos de uma esclerose múltipla, mas em geral a ADEM provoca um único ataque do qual a maior parte dos pacientes se recupera em cerca de seis meses.

Quando tiveram alta do hospital, cinco dos seis pacientes continuavam com problemas motores. Um teve problemas de visão e outro apresentou problemas de memória e de capacidade de raciocínio.

"Isso não quer dizer que todas as pessoas infectadas com o zika terão esse tipo de problema cerebral. Daqueles que apresentaram problemas no sistema nervoso, a maior parte não tem sintomas cerebrais. No entanto, nosso estudo pode ajudar a esclarecer possíveis efeitos duradouros com os quais o vírus pode estar associado no cérebro", disse Maria Lúcia.

"Neste momento, não parece que os casos de ADEM estejam ocorrendo com uma incidência tão grande como a dos casos de Guillain-Barré, mas essas descobertas feitas no Brasil sugerem que os médicos devem ficar vigilantes quanto à possível ocorrência de ADEM e de outras doenças autoimunes relacionadas ao sistema nervoso central", disse James Sejvar, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) de Atlanta, nos EUA.

"A questão é: por que o vírus zika parece ter essa forte associação com a síndrome de Guillain-Barré e, potencialmente, com outras doenças autoimunes e inflamatórias do sistema nervoso?", questionou Sejvar.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Zika reduz o desenvolvimento do cérebro fetal em 40%

Mãe amamente bebê com zika
Em mais uma peça do quebra-cabeça que vem sendo montado por cientistas na tentativa de solucionar o vínculo entre zika e microcefalia, pesquisadores do Rio mostram que a infecção reduz o desenvolvimento do cérebro fetal em 40%, quando comparado com outro que não teve contato com o vírus.

O estudo, que tem financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), foi publicado pela revista Science.

O trabalho, liderado pelo pesquisador Stevens Rehen, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino, usou minicérebros.

São estruturas de menos de dois milímetros, obtidas a partir de células-tronco, que reproduzem o cérebro de um feto de dois meses.

Têm as camadas, os ventrículos e características anatômicas observadas num cérebro. A diferença é que não têm vascularização, então não conseguem crescer além dessa fase.

Em pesquisa anterior, a equipe de Rehen já havia demonstrado a destruição de células neuronais pelo zika. Desta vez, o minicérebro foi infectado pelo zika no 35º dia de desenvolvimento (equivalente ao feto no segundo mês de gestação) e teve a taxa de crescimento acompanhada pelo período de 11 dias.

"O que a gente observa é a redução de crescimento em torno de 40%. De certa forma, o resultado é equivalente ao que é observado in vivo. A partir desse resultado, nós temos um modelo para testar possibilidades de tratamento", afirmou Rehen.

É nessa fase do desenvolvimento que começa a ser formado o córtex, área nobre do cérebro. "São camadas de cérebro que se formam durante o desenvolvimento. Quando se impede isso de acontecer, se formam alterações que temos visto nos bebês cujas mães tiveram zika, como microcefalia, lisencefalia (ausência de circunvoluções no cérebro)."

Os pesquisadores também contaminaram o minicérebro com o vírus da dengue. "Ele infecta até mais do que o da zika, mas não causa estragos", explicou o especialista.

Na próxima etapa do trabalho, os pesquisadores querem entender como o zika entra nas células neuronais. Estudo do pesquisador Arnold Kriegstein, da Universidade da Califórnia, mostrou que células do cérebro em desenvolvimento têm o receptor AXL.

"A pesquisa sugere que seja através desse receptor que o zika entra nas células. Já havia evidências de que vários vírus, como o da Febre Oeste do Nilo e o da dengue, usam esse receptor. É como uma porta que é utilizada por outros vírus para acessar a célula. Ele mostrou que tem a porta. Ninguém colocou o vírus para abrir. Agora vamos testar o bloqueio desse receptor para ver se de fato o vírus não entra", afirmou.

Rehen já encomendou o anticorpo para AXL e o inibidor desse receptor - os insumos são importados. Agora depende dos trâmites burocráticos para a pesquisa andar. São pelo menos 60 dias até o material chegar.

Fonte: Exame

Unicamp cria biblioteca digital sobre zika e Aedes aegypti

Aedes aegypti mosquito transmissor da dengue e zika virus
Com o objetivo de concentrar informações científicas e de outras fontes que auxiliem no desenvolvimento de novas pesquisas relacionadas ao enfrentamento das doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) criou a Biblioteca Digital Zika http://bdz.sbu.unicamp.br/wp/, plataforma on-line de acesso aberto que disponibiliza conteúdos publicados na área em todo o mundo.

A iniciativa surgiu a partir de conversas entre o Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU) e o grupo de trabalho coordenado pela Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), formado por docentes e pesquisadores de diferentes especialidades que buscavam reunir soluções nas áreas de controle do inseto, virologia, epidemiologia e imunologia, entre outras. A ideia é fornecer suporte informacional aos cientistas ligados à força-tarefa da Rede Zika, composta por representantes de várias instituições no Estado de São Paulo responsáveis por projetos de pesquisa apoiados pela FAPESP sobre o vírus e seu vetor (leia mais sobre a rede em agencia.fapesp.br/22671).

“Como se trata de um tema relativamente novo, a informação é um elemento fundamental para dar suporte ao pesquisador e possibilitar que ele, a partir do que já foi conseguido, avance no conhecimento. Todo esse material foi organizado e continua sendo compilado para que a informação seja alcançada pelo cientista de forma rápida e precisa, fazendo com que o conhecimento acumulado sobre o vírus, seu vetor e as doenças relacionadas a eles circule, multiplique-se e contribua para o fortalecimento das pesquisas na área, a formulação das políticas públicas necessárias e o bem-estar da população”, disse Regiane Alcântara Bracchi, coordenadora do Sistema de Bibliotecas da Unicamp (SBU) e supervisora da Biblioteca Digital Zika.

Já são mais de 200 artigos disponíveis, todos validados por pesquisadores da Unicamp ligados à Rede Zika. O conteúdo é classificado em cinco grupos: caracterização molecular e biológica; mecanismos de imunopatogenicidade; novas metodologias de diagnóstico; estratégias de bloqueio da transmissão e controle do mosquito; e epidemiologia, imunologia e repercussões clínicas. É possível fazer busca por autor, assunto e título em todos os grupos.

De acordo com Alvaro Penteado Crósta, vice-reitor da Unicamp e coordenador da biblioteca, a escolha dos temas buscou abranger todos os aspectos científicos relacionados ao Zika.

“Por se tratar de um vírus pouco conhecido e com alto potencial de propagação, existe atualmente uma grande proliferação de iniciativas de pesquisas do Zika em todo o mundo. Isso resulta numa igual proliferação de artigos científicos, livros, relatórios e notícias divulgados em vários tipos de mídia. A Biblioteca Digital Zika tem o objetivo de coletar e disponibilizar essa vasta gama de informações em um único sítio eletrônico, levando a grande economia de tempo dos pesquisadores que necessitam dessas informações para dar suporte às suas pesquisas”, contou Crósta.

A biblioteca também conta com análises da produção científica a partir de bases de dados para auxiliar o pesquisador na compreensão do desenvolvimento das pesquisas na área. O serviço permite identificar as temáticas com o maior número de pesquisas, a participação do Brasil e de instituições brasileiras em estudos sobre o vírus Zika e os pesquisadores que mais publicaram sobre o assunto, além de outras ocorrências, oferecendo um panorama geral da produção de conhecimento científico sobre a área no mundo.

Há, ainda, orientações sobre fontes de financiamento, voltadas a programas de fomento à pesquisa que contribuam para enfrentar os impactos na saúde pública das doenças transmitidas pelo mosquito Aedes Aegypti, além de notícias veiculadas pela imprensa nacional e internacional, vídeos e outros conteúdos informativos e chat on-line com bibliotecários para esclarecimento de dúvidas e solicitação de informações.

Além de Bracchi e Crósta, integram a equipe da Biblioteca Digital Zika Gláucia Maria Pastore, pró-reitora de Pesquisa da Unicamp e coordenadora da Rede Zika na instituição, e Daniela Feijó Simões, Márcio Souza Martins, Michele Lebre de Marco e Oscar Eliel, responsáveis pelo desenvolvimento e pela implantação do projeto, bem como profissionais das diretorias de Tecnologia da Informação, Tratamento de Informação, Difusão da Informação e Gestão de Recursos do SBU e das bibliotecas do Instituto de Biologia, da Faculdade de Medicina e do Instituto de Química da Unicamp.

“A iniciativa de criação de um portal que permita acesso rápido a informações científicas de qualidade vai auxiliar enormemente o desenvolvimento dessa área de pesquisa, tema de tanta relevância para a saúde pública mundial como o caso do vírus Zika. Além disso, o portal inaugura um novo formato de divulgação científica qualificada para públicos-alvo”, declarou Pastore.

A plataforma está disponível para acesso público desde março, no site bdz.sbu.unicamp.br, e segue sendo atualizada. Está em desenvolvimento um sistema de alerta para notificar a entrada de novos conteúdos disponíveis.

Fonte: Exame