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terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Estação da Luz é testemunho da riqueza do café

Incêndio no Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo - 21/12/2015
A Estação da Luz, onde estava instalado o Museu da Língua Portuguesa, mais que um projeto totalmente inglês — de suas linhas arquitetônicas ao material usado em sua construção — é um testemunho do poder do café no começo do século passado como principal produto responsável pela expansão da cidade.

A São Paulo Railway, proprietária da estação, tinha, então, o monopólio do transporte do café para o porto de Santos, o que explica parcialmente o interesse de investir pesado numa nova estação — a de 1867 já não comportava nem as suas nem as necessidades da Metrópole.

Composta por dois blocos, uma grande edificação de alvenaria e um gare envidraçada, a Estação da Luz foi inaugurada em 1900, seguindo o mesmo padrão adotado na estações Brás e Santos.

Atribuído ao arquiteto britânico Charles Henry Driver (1832-1900), o primeiro a desenhar uma cobertura envidraçada para uma estação ferroviária (na Inglaterra), o projeto da Estação da Luz passou por modificações no decorrer do século, entrando em decadência em 1946, quando sofreu seu primeiro incêndio — criminoso, segundo suspeitas.

Antes, em 1915, justamente há um século, o prédio já fora ameaçado por arquitetos que identificam no projeto arquitetônico da estação ferroviária certa nostalgia fora de época. Houve quem defendesse mesmo a sua demolição.

O arquiteto francês Victor Dubugras (1868-1933), criado na Argentina e autor de alguns prédios tombados pelo Iphan — como a estação da Mayrink — assinou dois projetos que previam o desmonte da gare.

Arquivos

Os arquivos da Rede Ferroviária Federal não têm registros de nenhum dos dois projetos. Ambos responderiam a um possível desejo do governo paulista de centralizar todas as estradas de ferro que cruzavam ou chegavam a São Paulo (Prestes Maia tentaria mais uma vez criar uma única estação central em 1930).

O fato é que a estação resistiu, embora mal. A sua degradação, logo após o fim da 2ª Guerra, acompanhou a degradação do Jardim da Luz, que virou ponto de prostituição, e também do prédio onde hoje funciona a Pinacoteca do Estado, construída em 1895, cinco anos antes da Estação da Luz, para abrigar o Liceu de Artes e Ofícios.

A Pinacoteca só foi recuperada graças a uma reforma que durou cinco anos (de 1993 a 1998) e teve como arquiteto Paulo Mendes da Rocha, que também assinou o projeto do Museu da Língua Portuguesa (com seu filho Pedro Mendes da Rocha).

Mendes da Rocha respeitou o projeto original da Estação da Luz, assim como o da Pinacoteca, projeto de Ramos Azevedo que pode ser igualmente classificado de eclético, por misturar diversos estilos arquitetônicos e se aproveitar das conquistas tecnológicas do fim do século 19, como as estruturas de ferro forjado.

São Paulo, que adorava o estilo neoclássico, virou o panteão da arquitetura eclética, da qual a Estação da Luz é um dos exemplos.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Bombeiros fazem rescaldo de incêndio na Estação da Luz

Bombeiros combatem incêndio de grandes proporções no Museu da Língua Portuguesa, na Estação da Luz, em São Paulo, dia 22/12/2015
Equipes do Corpo de Bombeiros permanecem há 17 horas no Museu da Língua Portuguesa, no centro da capital paulista, fazendo o rescaldo dos últimos focos do incêndio que destruiu ontem (21) parte do prédio histórico.

Um brigadista do museu, Ronaldo Pereira da Cruz, morreu enquanto trabalhava no controle do fogo.

O fechamento da Estação da Luz, anexa ao prédio incendiado, afeta nesta manhã duas linhas da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM): a 7 – Rubi, que opera apenas até a Estação Barra Funda, e a linha 11 – Coral, que funciona até o Brás.

A Defesa Civil informou que aguarda o fim dos trabalhos do Corpo de Bombeiros para iniciar a vistoria. Há a possibilidade de que um curto-circuito, provocado durante a troca de uma luminária, tenha iniciado o fogo.

Essa hipótese foi levantada após relatos de funcionários. Apenas o laudo técnico, porém, poderá confirmar o que realmente causou as chamas.

De acordo com o governo do estado, o acervo perdido do museu era virtual, assim será possível a sua recuperação. O edifício também será reconstruído.

“Vamos reconstruir esse museu que traduz a alma do povo brasileiro, com o apoio da população do estado, do Brasil, com nossos parceiros da iniciativa privada”, declarou o governador Geraldo Alckmin.

“Nosso maior compromisso vai ser com todos os parceiros da sociedade civil, da área museológica brasileira. Começaremos o processo de restauração do museu para que ele possa ser reaberto o mais breve possível”, disse o secretário da Cultura, Marcelo Araújo.

Segundo a Secretaria Estadual da Cultura, o museu “atendia a todos os requisitos necessários para a segurança e circulação de visitantes e funcionários, e os procedimentos de segurança eram verificados periodicamente. Além disso, o prédio tem seguro contra incêndio da ordem de R$ 45 milhões”.

Fonte: Exame/Abril